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Artigos
Textos, monografias e materiais didáticos no universo das Danças Circulares Sagradas.
Texto escrito para a revista FisioBrasil ed. 112.
Descrevo neste texto minha jornada profissional e como se deu a integração das Danças Circulares ao Método GDS de cadeia musculares e articulares.
Publicado em: 31/10/2013
Por: Valéria Rosa Pinto da Silva

Todo o Universo está em movimento durante todo o tempo, neste exato instante tudo pulsa e se move dentro e fora de nós. Tanto no macrocosmo quanto no microcosmo percebemos uma constante movimentação: planetas, mares, ar. Dentro das moléculas e dos átomos, dançam prótons, neutrons e partículas sem cessar. Na natureza, tudo está em constante troca, fluidez e transformação. Estudando nossa estrutura: ossos, articulações, músculos, pele e órgãos vitais nos certificamos que também nunca estamos imóveis: circulação sanguínea, batimento cardíaco, respiração, trocas gasosas, digestão, movimentos peristálticos... O corpo foi feito para a dinâmica. Os animais instintivamente “entendem” esta verdade e seguem seu ritmo nato: espreguiçam, bocejam, brincam, pulam. Eles conservam seu padrão original e suas possibilidades de movimento por quase toda a vida. O homem, embora possua um sistema gestual muito mais refinado, muitas vezes precocemente, acaba por desorganizar inteiramente seu sistema locomotor, incorrendo em descoordenações desses padrões (Bertazzo, 1996). Na infância a expressão corporal acontece livremente, conforme nos tornamos adultos, com a correria da vida moderna perdemos a sensibilidade em vários níveis e em especial a do corpo. A naturalidade dá espaço à rigidez, o gesto se molda a padrões limitados, ficamos cada vez mais sedentários, presos tanto no pensar como no agir, quase nos tornamos robôs, máquinas programadas para determinadas funções. E assim surgem os acúmulos de tensão e vícios posturais que geram lesões, mal estar, dores, desgaste físico e mental. O homem se aparta de sua natureza, se desconecta de si mesmo, perde sua autonomia, sua força, sua saúde. Deteriorando por completo sua qualidade de vida, muitas vezes de forma irreversível. “A saúde não é só ausência de doenças e sim equilíbrio das áreas física, mental e espiritual” (Organização Mundial da Saúde). Nós fisioterapeutas precisamos estar antenados com esta questão, já que o corpo é nosso instrumento e matéria-prima de trabalho. Não há mais espaço para tratar o indivíduo de forma segmentar: um braço, uma perna, um tronco, um pé... É preciso ter a visão da anatomia integrada ao todo. O corpo é parte indissociável do ser, integra em si os diferentes aspectos das dimensões humanas. Expressa-se e comunica-se de acordo com o espaço, o tempo e a cultura. “Nosso corpo somos nós. É a nossa única realidade perceptível. Não se opõe a nossa inteligência, sentimentos, alma. Ele os inclui e dá abrigo. Por isso tomar consciência do próprio corpo é ter acesso ao ser inteiro... pois corpo e espírito, psíquico e físico e até força e fraqueza, representam não a dualidade do ser, mas sua unidade” (Thérèse Bertherat). Precisamos de uma Fisioterapia mais “Somática” (Soma significa “Corpo vivo”), isto quer dizer que é preciso dar ao corpo outro destaque, a de corpo-sujeito, o que implica uma relação mais consciente e ativa da pessoa com seu próprio corpo. Meu caminho na área terapêutica começou de forma despretensiosa e inusitada. Minha primeira formação foi em Comunicação Social pela Universidade Federal Fluminense, até então não imaginava que tinha vocação para a área de saúde, até que conheci a Escola Angel Vianna_ Centro de Movimento e Artes. Na época a procurei para fazer aulas avulsas de dança, já que esta, minha maior paixão, eu havia abandonado para entrar numa faculdade cuja carreira acreditava ser mais promissora financeiramente. Lá descobri uma outra forma de expressão, antes de tudo precisávamos entrar em contato com os próprios ossos, articulações, músculos, deitávamos no chão, respirávamos, fazíamos micro movimentos para então dançar, criar , se movimentar. Acabei entrando no curso de formação em Dança Contemporânea, ao todo foram 5 anos naquela instituição. O pré-profissionalizante, os três anos de dança e o curso de Recuperação Motora pela dança. Foi um momento enriquecedor e de grandes descobertas. Tive meu primeiro contato com o Método GDS de cadeias musculares e articulares que acredito ser o mais completo dentro da área de fisioterapia e hoje se tornou o fio condutor do meu trabalho, pois possui uma abordagem biomecânica e comportamental que atua na prevenção, no tratamento e na manutenção da boa organização corporal. E também conheci as Danças Circulares, instrumento de integração corpo-mente que através da roda, da música e dos ritmos dos mais diversos povos, favorecem o condicionamento físico, a coordenação motora, a flexibilidade e o autoconhecimento. Comecei então a dar aulas de Consciência e Expressão corporal, minha estréia foi no Encontro de estudantes de Comunicação Social que aconteceu no Maranhão em 1994, depois de forma esporádica em eventos , durante dois anos, dei aulas, vivências e palestras sobre “Corpo” para crianças, para terceira idade e grupo família no Sesc, até que surgiu uma proposta para eu montar um projeto de Dançaterapia para uma grande rede de Supermercados, o projeto durou quase quatro meses, dei aulas para os atendentes, caixas, para a gerência, setores administrativo. de segurança e de serviços gerais. No final de 1998 entrei para a Real Grandeza- Fundação de previdência e Assistência Social de Furnas , a convite de uma assistente social que me conhecera neste projeto e permaneci por dez anos. Percorria as salas dando aulas de consciência corporal, aliando sempre música, movimento e até a dança. Depois ganhei uma sala para atendimentos individuais também A responsabilidade foi crescendo, a cada dia me tornava mais terapeuta, prestei serviço para várias empresas SHVG (antiga Supergasbrás e Minasgasbrás), Grupo Porcão, Furnas, Eletronuclear, Caefe etc. Fiz então a formação em Fisioterapia e a pós-graduação em Terapias Corporais_ Fundamentos teóricos, ambos na Uni- IBMR. Hoje integro todas estas técnicas. A base do meu trabalho está na Conscientização Corporal (o “habitar o próprio corpo/ estar em si mesmo”) através do movimento, do toque e da expressão/dança. Acredito na prevenção e no autocuidado como estratégia para a conquista da saúde integral. Ao despertar a percepção interna, passa-se a ouvir os pequenos sinais que o corpo dá antes de apresentar grandes incômodos. É preciso que se resgate este contato íntimo interno, a percepção de si mesmo, o desenvolver da sensibilidade, o fortalecimento da imagem própria, o olhar para dentro. Estar presente na vida, centrado, atento, ter um corpo organizado e coordenado. Sempre afirmo: Não devemos limpar todos os dias nossas casas? Todos os cantos que acumulam poeira? Não devemos aquecer o motor do carro antes de usá-lo? Cuidar da manutenção dos nossos bens de consumo? Por que esquecer e abandonar seu próprio corpo, sua mais verdadeira moradia? O movimento é um elemento insubstituível para o equilíbrio geral da saúde. Por isto é tão importante o resgate da liberdade e lubrificação das articulações, dos músculos, o despertar do corpo para a vida e os sentidos__nossas janelas e portas para o mundo, a ponte de ligação entre o que está fora e dentro de nós. Este pensamento está presente nos meus atendimentos individuais com reeducação postural, nas aulas de Pilates e nos meus workshops de Danças Circulares com Reeducação do Movimento_ a Roda de “Equilibração Corporal” que comecei este ano no Centro Pulsar de Equilibração Corporal e é a concretização de um antigo sonho onde posso colocar em prática todos os conhecimentos adquiridos ao longo destes anos. Dançar é instintivo. Em todos os tempos, a humanidade celebra suas festas, guerras e lutos através das danças. Com elas nos sentimos mais vivos, permitimos que a energia circule por todo o corpo. Pelos movimentos eliminamos bloqueios que endurecem partes do corpo e modificam a postura. O ser urbano em especial tem dificuldades em se expressar, saltar, correr, agir espontaneamente. “A dança é o pensamento do corpo” (Helena Katz). As danças circulares estão presentes nas mais diferentes e antigas tradições de diversos povos em todo o planeta. Realizadas em círculo e de mãos dadas, elas propiciam uma experiência de aprendizado e percepção de si mesmo e do outro. O gesto dançante traz sensação de unidade e integração. Dançar em grupo é extremamente estruturante para o ser humano. Segundo Platão a dança é um exercício que dá proporções corretas ao corpo. A dança é a “poesia no movimento”, assim como a música é a “poesia no som” (Cristiana Menezes). Num primeiro momento trabalhamos o corpo através das técnicas de Reeducação do movimento contida no Método GDS de cadeias musculares e articulares. A fisioterapeuta belga Godelieve Denys-Struyf criadora que deu o nome ao método, afirmava que a forma de nosso corpo deriva de uma multiplicidade de fatores, desde a genética até o psiquismo e o comportamento. Há seis famílias de músculos que dão ao corpo a possibilidade de se expressar. A cada uma delas corresponde uma tipologia psico-comportamental. Entretanto, elas podem, em consequência de uma constante tensão, aprisionar o corpo em uma determinada tipologia, dificultando sua adaptabilidade mecânica e comportamental, tornando-se fonte de sofrimento. No conceito do método GDS, a reconstrução arquitetônica e geométrica do osso é primordial. Mme. STRUYF aconselha a visualizar regularmente a forma e o comprimento do suporte ósseo, aos quais estão ligados os músculos, e o qual pode ser comparado a um instrumento musical. O trabalho corporal estimula o sistema nervoso que, de maneira reflexa, irá estender e coordenar as cordas musculares para tocar a melodia exata da sinfonia corporal. Então começamos acordando o corpo através de sensibilizações, massagens, percussões, com auxílio de bolas, rolos de espuma, bambus, bolas... Trabalhamos o gesto justo, as rotações fisiológicas dos membros superiores e inferiores, a escovação da pele e a prontidão corporal. Depois dançamos coreografias do repertório das Danças circulares, obedecendo a estratégia da Lemniscata que afirma que a tensão percorre as cadeias musculares seguindo uma determinada sequencia que ativamos através das danças, pois seleciono coreografias com as qualidades de cada cadeia muscular. Assim trabalhamos todo o corpo e fazemos que a energia circule por todas as tipologias, levando a uma agradável sensação de liberdade, autonomia, centramento e alegria. E é disto que precisamos nesta era pós revolução eletrônica onde as pessoas ficam cada vez mais tempo sentadas e imóveis, muitas delas preferindo o mundo virtual ao real. Fechando-se em si mesmas, aprisionando e achatando seus corpos, diminuindo seus espaços internos, seus volumes, comprimindo vísceras, desenvolvendo hérnias de disco, tendinites, contraturas, alterações posturais, inversões de curvas da coluna vertebral, fibromialgias, desânimo, depressão entre outras. Evoluindo, assim, para doenças degenerativas e crônicas. Precisamos cuidar com mais carinho e respeito desta “máquina” que embora perfeita, não é infalível. Este é um desafio para esta geração e com certeza em especial para a área de saúde.

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